Inkebravel — que decepção
Pois é, o Inkebravel (vulto inchegável) chegou finalmente, depois de praticamente 9 meses de espera. E que gestação dolorosa essa, hein?
Podemos considerar várias frustrações nesse caminho, até porque eu fui um dos apoiadores no Catarse. Apoiei no ano passado porque me vi na obrigação, e também na vontade, de colaborar com algo realmente nosso, brasileiro. Confiei na criatividade do nosso povo.
Eu estava errado.
Podemos falar de decepção? Ou sou obrigado a elogiar mesmo não tendo gostado e, sinceramente, não tendo orgulho nem de ver meu nome nos agradecimentos finais?
A única coisa que me faz não pôr fogo neste quadrinho é que a arte está espetacular. Temos aqui pessoas que eu, pelo menos, não conhecia e que demonstraram um talento enorme artisticamente. Isso eu realmente tenho que reconhecer.
Mas é só.
Vamos lá. Para começar, a introdução já é um balde de água fria. O quadrinho começa com aquele papo de “nerdola de direita”, contra a esquerda e outras coisas que, sinceramente, não fazem muito sentido estarem ali. E que provavelmente vão envelhecer muito mal.
Eu compro um quadrinho para ler uma história, não para ficar lembrando da guerra política que já vejo todos os dias na internet.
E o problema é que isso não fica apenas na introdução. A história toda parece girar em torno de personagens caricatos de mulheres trans, feministas, favelados e outros estereótipos, dando a impressão de que nosso herói vai passar boa parte da história combatendo exatamente isso.
Veja, eu também não gosto dessa forçação de barra com transexualidade, feminismo e outros assuntos que hoje aparecem em absolutamente tudo. Mas eu preciso ser lembrado disso a todo momento?
A impressão que fica é que o Inkebravel foi feito justamente para bater mais uma vez nessa tecla. E, sinceramente, eu já estou cansado dessa discussão.
Quando apoiei o projeto, eu imaginava outra coisa.
Eu queria ler uma história de super-herói brasileira. Uma coisa mais simples, talvez até clichê: um homem que trabalha com lixo é contaminado por alguma substância misteriosa, começa a desenvolver poderes e, aos poucos, precisa descobrir o que fazer com aquilo.
Uma espécie de Homem-Aranha brasileiro.
E por que não?
O Homem-Aranha funciona justamente porque, por trás dos poderes, existe uma história sobre uma pessoa comum tendo que lidar com uma situação extraordinária. “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.”
Não precisava reinventar a roda. Eu só queria uma história divertida, criativa e que me fizesse esquecer por algumas horas o mundo lá fora.
Mas não.
Em vez disso, encontrei uma história que, na minha opinião, parece muito mais preocupada em passar uma mensagem política do que em contar uma boa história de super-herói.
E isso me decepcionou bastante.
Talvez a minha frustração seja ainda maior porque eu realmente queria gostar desse quadrinho. Eu queria poder falar “olha aí, finalmente temos um quadrinho brasileiro que vale a pena”.
Inclusive, eu pensei em compartilhar o Inkebravel com minha sobrinha, que tem 12 anos.
Mas, depois de ler, sinceramente não tenho coragem.
Não estou dizendo que crianças não possam ter contato com política ou com temas sociais. A questão é outra. Eu simplesmente não vejo esse quadrinho como uma história infantil ou juvenil de super-herói. O tom e a maneira como esses temas são tratados me parecem muito mais direcionados a adultos que já estão envolvidos nessa guerra cultural.
E aí está talvez a maior ironia de tudo.
Eu apoiei o projeto justamente porque queria ajudar uma produção brasileira e porque queria acreditar que poderia surgir algo realmente criativo daqui.
A arte mostrou que existe talento.
O problema é que, para mim, faltou história.
No final das contas, fiquei com a sensação de que comprei um quadrinho de super-herói e recebi mais uma discussão política ilustrada.
E eu já tenho internet suficiente para isso.
